
Acordei com toneladas de fios de água..
Parece que as nuvens se teceram em alianças para me trazerem um novo dilúvio, mas não sei se será apenas por um dia ou ficará nos restos de todos os calendários até o fim deste conjunto de lagos e rios e mares dentro do poço onde caíram as nossas palavras, não sei se perde em sombras sem cor ou se nos devolve velhas serenidades.. Não sei se choverá amanhã e se choverá por muitos dias. Tudo quanto sei é que chove e que o Outono vem ter conosco em passos de presságio.
A chuva não é só este cinzento dos dias que aproximam, a antecipação de reclusões demoradas em armários com espelhos no interior, não é só esta colisão de sóis em fins pequeninos de mundos, em derrocadas, em verbos sem sentido. Traz-no também um bocadinho de magia, lava-nos por dentro por vezes ouvi-la nos seus acordes únicos, inimitáveis. A mim pelo menos por vezes faz-me parar, e é tão importante pararmos de vez em quando, não é? Para nos sentirmos, para nos lermos, nos ouvirmos, nos deixarmos ser apenas no sentir, sem essa mescla de pequenos nadas que nos bombardeia em rodopios de cor..
Mas nem sempre conseguimos ouvir-nos quando paramos. O Outono nos seus dias pode ser pesados, ou os dias que sem serem de Outono parecem de Outono, na sua letargia de folhas caídas e plantadas na inércia do solo, na leveza do tempo de ficar, de sentar revoltas em poltronas de mármore, frias como o vento que nos impele contra as portas do conformismo.. Por isso também a calma pode ser apenas aparente, pode não ser mais do que um adiamento da nossa revolta, do nosso reencontro..
Pode ser apenas um refúgio para interrompermos o nosso grito, afundados em almofadas de tédio.
Mas não importa em que estação estamos, tenho à minha volta toneladas de fios de água.

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